Prefácio do livro “O amor pode dar certo”

O prefácio do livro “O amor pode dar certo, de Roberto Shinyashiki e Eliana Bittencourt Dumêt, foi escrito pelo Frei Leonardo Boff. Convido-os para a leitura do prefácio e, se possível, da obra inteira.

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Este livro é a expressão de uma prática amorosa funda, que encontra agora seu momento reflexivo. No fundo, trata-se de uma fenomenologia do amor cotidiano, com suas realizações, suas patologias, suas buscas e suas promessas. E há muita confiança no amor, contra toda uma tendência cética dos que confundem o amor com o desfrute desbragado da vida.
Mas o amor supõe trabalho e arte. É verdade que nascemos com imensas potencialidades de amar, mas também somos herdeiros de distorções culturais poderosas, que dificultam a gratificante experiência do amor. Por isso, o amor exige trabalho sobre nós mesmos e, não raro, contra nós mesmos. Até transformar as pessoas para viverem o amor como a arte de um relacionamento o mais inclusivo possível.
O amor é a relação básica do ser humano. Somente por ele se expande o sistema da vida e se alarga a percepção do sentido da totalidade. Os maiores inimigos do amor são o medo e a indiferença. O medo estiola a pulsação vital e transforma o amor em angústia. A indiferença supõe a morte do amor. As pessoas antes amadas, na indiferença, perdem significação; o fascínio por elas empalidece, o imaginário se esvazia e o desejo se apaga.
A arte do cultivo amoroso supõe ternura, percepção do detalhe e valorização do universo simbólico. Sem símbolos de afeição não há encontro de amor; há a reunião em nome de interesses e, no máximo, a amizade que nos garante o sentimento de pertença e nos ajuda a enfrentar a solidão. Mas o amor é outra coisa: é a transfiguração do pequeno, é a inauguração da eternidade ("Se eu te amo, sei que tu não morrerás jamais") já dentro do tempo, é a preservação da inocência que não se perdeu totalmente no fracasso histórico e originário da existência humana.
Mas o amor não possui somente essas significações mais transcendentes. Ele se dá nas dobras da vida, na sexualidade, na paixão, no cuidado, no trabalho, nas crises de encontro, no aprendizado mútuo, na acolhida das diferenças, amiúde, tão desafiante, nos fracassos de uma das partes.
A autenticidade do amor se mede na capacidade de sofrer por causa do amor, de sustentar a relação para além da satisfação imediata, no entendimento de que todo amor humano se realiza dentro de um encontro, de uma história de encontro, até fundir as vidas numa única direção, numa interpenetração de desejos, de sentimentos e de destino. Eliana e Roberto entram, com fina percepção, nesse campo da construção cotidiana do amor, onde a sabedoria universal e dados da observação científica ajudam a estabelecer o quadro do aprofundamento.
O amor é criativo; é a maior afirmação da vida; por isso, o amor irradia alegria fontal. O amor está próximo da poesia, criação mais excelente da escritura. Não é sem razão que um livro que sustenta vigorosamente a certeza de que "amar pode dar certo" venha perpassado de poesia, dos próprios autores.
Por fim, o amor constitui a realidade axial da vida, a ponto de ser a própria definição da divindade. Não podemos pensar nem desejar Deus senão no prolongamento da experiência do amor. "Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele" (1 Jo 4,16). A medida da fidelidade a Deus se encontra na fidelidade ao amor. Quem tem amor tem tudo: a terra, a paz, o coração e o próprio Deus. O livro de Eliana e Roberto reforça essa utopia. Por isso é verdadeiro.

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